Logotipo Allameda
Home Page Quem Somos Serviços Cases Clientes Contatos
 
 
12/09/2014
O bilionário ‘negócio dos sonhos’ do extrativismo de carga
<Artigo / republicação permitida desde que texto e assinatura não sejam modificados>

Por Barry Wolfe*

Qualquer atividade econômica que cresça 14% ao ano merece estar no radar de investidores profissionais, mesmo que ela tenha lá seus riscos. O apetite pode ficar maior se o mercado em questão já se mostra maduro, com instituições internas sólidas e igual nível de previsibilidade, além de demonstrar em números seus músculos atuais e potenciais – digamos, por exemplo, movimentar algo como R$ 1 bilhão por ano sem necessidade de abatimento de impostos. Uma aplicação tentadora, não? Esse é um resumo bastante sumário, que não mostra a riqueza de conformações do segmento, do mercado brasileiro de roubo de cargas.

Os números são atuais – 14%, abreviação de 13.8 pontos percentuais, é o crescimento de julho a julho, entre 2013 e 2014, na atividade-mãe do segmento, o braço digamos extrativista da atividade na região metropolitana de São Paulo. São dados confiáveis da Secretaria de Segurança Pública paulista. É significativo, já que o estado responde por mais de metade do mercado brasileiro de roubos ao “atacado” dos produtos. O sólido crescimento pode empalidecer os resultados do ano passado, quando se calculou prejuízo de quase US$ 500 milhões com as ocorrências para quem perdeu as cargas – e receita similar para quem as levou embora.

É só para mim que isso soa assombroso e, ao mesmo tempo, tentador para investidores do submundo? A parcela tentadora esbocei nos números acima, mas há outros tantos que polvilho a seguir. Porém a parte assombrosa é que tem, ou deveria ter, certa dose extra de interesse para o lado do balcão ao qual pertencemos. Ela denota uma série de certezas que uma investigação intelectual básica mostra como algo além do preocupante.

A primeira destas certezas é que um mercado de tais dimensões não se faz da noite para o dia. Em 2014, no Brasil todo, a cada 24 horas ocorreram 24 roubos de carga. Agora em julho, só na Grande São Paulo, os trabalhadores do submundo roubaram 15 cargas por dia. Embora se roube de tudo um pouco, uma análise mais detida mostra que na média, ao lado dos grandes volumes de bens, o setor tem foco no alto valor agregado – a preferência dos grupos empresariais do crime está em produtos eletroeletrônicos e metalúrgicos, autopeças, medicamentos e tecidos.

Uma questão impertinente é como uma atividade tão florescente não é ceifada, já que florescência de tal magnitude deixa marcas de igual ou maior dimensão. Mas vamos deixar a impertinência para o lado por um instante e partir para a segunda, e talvez mais importante, das certezas. Assim como um segmento vistoso não cresce instantaneamente, ele tampouco se sustenta sem uma sólida infraestrutura. Confesso que vou usar algumas descobertas que fiz em investigações de roubos de cargas no passado recente, e que valem com perfeição para o atual boom do setor. Uma delas é a sofisticação inerente a qualquer operação de grande porte. Alguém disposto a romper o ciclo de prejuízo primário de R$ 1 bi à economia formal brasileira deveria, em um primeiro momento, esquecer o roubo pontual e olhar o macrocenário com olhos de estrategista empresarial.

Desenhar o organograma funcional da infraestrutura necessária para movimentar tais quantias de bens é um bom começo. O que se nota é que, além de bilionário, o setor é dominado por grandes grupos, e não pequenas gangues. Como se observa isso? Pelo óbvio tamanho e organização do setor, que faz cargas roubadas – 70% delas no Sudeste – serem rapidamente distribuídas por todo o País. Gangue não tem essa capacidade. Na verdade, para capturar, estocar, distribuir e faturar centenas ou milhares de itens é preciso seguir alguns ditames básicos que qualquer empresário reconhece:

Inteligência: saber que produtos roubar e onde buscá-los
Logística: transportar cargas para armazéns no primeiro momento
Distribuição: ter centros de distribuição, logística e rotas prontos para uso, além de frotas e outros meios de transporte
Embalagem: pessoal e material para processos de preparação para distribuição
PDV: Sem pontos de venda finais o consumidor não acessa o produto
 Esses cinco pontos são apenas os mais óbvios. Há bem mais que isso, mas a partir deles se constrói fácil um organograma de empresa, com seus respectivos departamentos, necessários a gerir tal estrutura. E, note, não é uma empresinha qualquer. Estamos falando de uma organização que necessariamente precisará de departamentos de logística, comercial, pós-produção (embalagens etc), almoxarifado, contábil, financeiro, jurídico, RH (já que há dezenas ou centenas de funcionários), administrativo, TI para suportar tudo isso e, no limite, até de marketing (que define por exemplo produtos hype, de maior lucratividade).

Sim, isso é uma empresa. Quantas delas fazem parte desse cenário bilionário do roubo de cargas? Então, como esconder isso? É grande demais, vistoso em excesso, para estar apenas no submundo – e mesmo se apenas nele estiver, continua sendo demasiadamente amplo para não ser visto por rastros que, dadas as dimensões, devem ter a largura de avenidas.

Um paradoxo que leva a balança a pender para o lado dos bandidos é que em muitos casos a estrutura acima rascunhada pode ser maior que a da empresa vítima. Na realidade, a companhia vitimada só pode contar parcialmente com as autoridades para investigar, reprimir e condenar culpados pelos crimes. Não só no Brasil, o grande crime organizado é interligado intimamente com sistemas legítimos de negócios – por exemplo, uma transportadora que também leva drogas ou frutos de roubo ou uma gráfica que roda embalagens de produtos falsos. Isso leva a que nem sempre a Justiça ou a polícia, entre outros atores do circuito repressivo e do governo, consigam se mexer bem no atoleiro que é o mix entre atividades legais e ilegais de uma organização em princípio legítima.

Um quadro difícil, sem dúvida, mas assim como o mercado de roubo de cargas não cresceu da noite para o dia, a solução para miná-lo também não será instantânea. Mas algumas coisas se sabe – primeiro, pelo que demonstramos, desenhar um quadro lógico das empresas criminosas do setor ajuda bastante a definir onde estão e quem são alguns dos atores parcialmente legítimos envolvidos na trama. Depois, que governo, Justiça e polícias não conseguem facilmente desmontar o circo de forma direta – práticas de guerrilha são, até prova em contrário, mais eficazes em um regime democrático. Uma dessas técnicas guerrilheiras, que se deveria olhar com mais dedicação, é o projeto de Lei 1.778/11, que permite cassação do CNPJ de estabelecimentos envolvidos na receptação de mercadorias roubadas.

É um começo talvez tímido, mas começo. De resto, e por enquanto, sobram às vítimas potenciais trabalhar bem sua área de Seguros e gerenciamento de risco (PGR), além de prestar atenção aos sistemas de inteligência e gestão de crise – os primeiros para evitar vazamento de informações, e os outros para impedir que produtos que possam causar danos ao consumidor, a exemplo de remédios vencidos, não cheguem ao público, ocasionando além do prejuízo direto outro e quem sabe pior dano à imagem da companhia. 

*Barry Wolfe é advogado pela Edinburgh University, pós-graduado em direito econômico pela Yale Law School e mestre em direito internacional por Cambridge, Inglaterra. Como diretor da Wolfe Associates Anti-Corruption Advisers comandou dezenas de investigações de crimes no mercado corporativo e de apoio a políticas de compliance, atendendo a companhias no top-100 das maiores empresas do Brasil.

Compartilhar



Retornar
 
 
 
Artigos
Artigos de Clientes de Allameda, especialistas em várias áreas. A republicação é livre.
Releases
Acesso a todos os press-releases e informações chave de nossos clientes.
Fotos em alta
Fotos de produtos, executivos e instalações de clientes de assessoria de imprensa.

ALLAMEDA.COM R Dr Rafael Correia 65 Cjto 4 Vila Romana | São Paulo | +55.11.3926-5580

powered by Fábrica de Tempo